@bailetropical e a Vanguarda do Brega

Enchendo o Brasil, a América Latina e a Europa de tecnobrega com a
festa Baile Tropical, o DJ PatrickTor4 fala sobre como o ritmo é
extremamente rico e assimilado por várias culturas.
Entrevista originalmente publicada no Jornal Cinform de Aracaju por Aline Braga cultura@cinform.com.br

 

foto por luisa Horta

 

Patrick Tor4 costuma causar algumas controvérsias. Diz as coisas do
jeito que vem à cabeça e, em termos de música, quase sempre está
certo. Ele sempre foi um DJ de vanguarda: tocava numa noite
aracajuana, diga-se lá, atrasadinha (de aceitação e de acesso a
váaaarios discos), um som dançante que muita gente nunca tinha ouvido
sequer falar.

Atualmente vivendo em Belém, capital do Pará, Patrick Tor4 entendeu
que o puro brega, também saído de lá e que vem obtendo espaço nos
ouvidos alheios, reivindica outro público. Uma galera cidadã do mundo
que em parte já buscou abrigo nas notas de Mano Chao, no embalo de
Emir Kusturica e que quer voltar a intercambiar cada vez mais com a
turma latino-americana.

Mas, enquanto vanguarda, enquanto tem muita gente tentando entender
que onda é essa que vem lá do gueto, Patrick explica e formata um som
que mistura eletrônica e uma produção popular brasileira, muitas vezes
relegada aos inferninhos. Esse som, que com ele tomou o nome de Baile
Tropical, somente neste primeiro semestre acabou de rolar no circuito
off do evento Porto Musical, em Recife, vai para o Brasil de norte a
sul e depois para sete cidades européias, além de Venezuela, Colômbia
e Argentina.

Recentemente Patrick Tor4 esteve em Aracaju tocando no Projeto Verão e
antes um set tranquilo no Bar Tio Maneco. De acordo com o DJ, o boom
latino vem seguindo a abertura das pistas que o kuduro e o balkan
beats conseguiram. Não é à toa que o sergipano DJ Kaska, que comanda o
programa Global Beats atualmente em Aracaju, encontrou espaço para
esses ritmos quando tocava na Europa.

por Luísa Horta ( no Fuscão dela)

“Na sequência, o funk carioca que lá fora é conhecido como baile funk
e, nos últimos dois anos a cumbia digital argentina, já seguindo os
passos do Reggaeton de quatro, cinco atrás”, afirma Patrick, resumindo
o processo que culminou no surgimento do termo Tropical Beat, que
junta tudo, ignorando fronteiras. Confira entrevista exclusiva com
ele.

Cinform – Como se define o seu Baile Tropical hoje?
Patrick Torquato – É um evento que cria o clima ideal pra que eu,
outros DJs e bandas possam fazer a mistura de ritmos que vem do norte
e nordeste brasileiro, África, América latina. O nome convida as
pessoas a um ambiente sem pré-conceitos e cheio de vontade de se
entregar ao som, qualquer que seja ele.

Cinform – Você sempre foi considerado um DJ alternativo. Como é que
seu trabalho visita o brega?
PT – Sou DJ alternativo porque tanto o público quanto os outros DJs
são escravos dos hits e do óbvio. Não me considero alternativo –
sempre fiz um som pop e divertido, absolutamente dançante. O problema
está na obrigação de tocar sucessos de rádio que nunca me encantaram.
Sempre estive ali pra divertir as pessoas. O brega é uma de nossas
músicas populares ricas. Não fui ao brega. Ele está em todos nós, mas
sem dúvida morar no Pará me ajudou a entender essa tendência, suas
referências e características. O brega é uma manifestação popular
urbana como o frevo, o samba, o forró. Como é o mais novo dentre
estes, é tratado como menor, ruim ou pobre. A partir do momento que
for produzido por produtores estrangeiros e grandes nomes nacionais,
como foi com o funk carioca, será respeitado. Infelizmente, o Brasil é
assim. Uma nova geração de artistas está fazendo seu trabalhado com
fortes referências do brega: Otto, Daniel Peixoto, Catarina Dee jah,
Cidadão Instigado e Felipe Cordeiro,

só pra citar alguns.

Cinform – E isso tem um quê de oportunismo de mercado?
PT – Estamos vivendo um terceiro, ou até diria um quarto, ciclo da
chamada world music, onde as periferias do mundo agora fazem a sua
própria música eletrônica, o que chamam de Getho Tech. O tecnobrega é
um destes, como o funk carioca, o kuduro de Angola, o balkan beats do
leste da Europa e a cumbia eletrônica da Argentina. Como qualquer
mercado, o da música vive de oportunismos também. Acho que seria
oportunismo meu lançar um disco de ‘pop sertanejo universitário’, ou
rock em português meio Restart – isso sim seria absolutamente fora de
minhas referências. Mas o que faço foi construído devagar e aos
poucos. Sempre trabalhei com música pop dos lugares periféricos.
Sempre me encantei por sonoridades tradicionais misturadas ao pop e
eletrônico. Já estávamos sintonizados nisso desde 2001 com a Naurêa,
Chico Corrêa da Paraíba, Pio Lobato do Pará. Quando colocamos a
cumbia, o sambaião, o funk, o hiphop com forró, até o arrocha no
período que eu estive na Naurêa, estávamos desenhando isso. O arrocha,
o rock Ie-ie-iê e a jovem guarda são primos do tecnobrega. Todos
filhos do bolero.

BaileTropical #15 com Gang Do Eletro e DJ Axel ( alemanha)

Cinform – Há algum tempo conversamos sobre como o público de Aracaju
aceitaria seu trabalho. Como é a aceitação por aí?
PT – A melhor escola para um DJ é um público indiferente. É como
treinar vôlei com aquelas bolas pesadas e cheias de areia. Quando você
volta pra bola normal, consegue jogá-la bem mais longe. Tocar em
Aracaju sempre foi isso. E não só pra mim, mas pra toda a minha
geração. Sempre foi difícil apresentar qualquer trabalho de qualquer
expressão artística pela falta de interlocução com o público. De
diálogo mesmo. Hoje é mais fácil por que depois de um ciclo grande de
cerca de 10 anos, ampliando espaços, shows, rua da cultura, e
culminando com a abertura de espaço na rádio, ampliou o universo de
referências tanto dos artistas quanto do público. Hoje o que toca na
rádio em Aracaju poucas cidades do país tem acesso. Ou seja, existe um
público qualificado que tanto conhece o trabalho dos artistas como
sabe em que universo ele está inserido, nacional e internacional.
Obviamente fora de Aracaju existem equivalências em cidades que passam
pela mesma dificuldade de acesso a informações musicais e culturais:
João Pessoa, Natal, Macapá. O quadro se modifica em centros onde
existe um discernimento maior, que obviamente é potencializado pelo
acesso a festivais de cinema, museus, boas livrarias e programações de
rádio diversas e plurais. O resultado de uma pista de dança cheia com
pessoas gostando de uma música diferente, desconhecida e divertida
está em todos os referenciais coletivos que permeia aquele grupo, e é
isso que explica os hits, não é a qualidade. É o fato de ser comum ao
repertório de todos e isso serve pra qualquer música. É teórico, mas é
a pura verdade.

Cinform – Você escuta a música brega do Pará?
PT – Em meu tempo livre escuto bolero, cumbia, forró, afoxé –
ultimamente são os principais. Procuro os lançamentos e também
raridades. Fico sempre atento ao aparecimento de algo novo. Os DJs e
produtores também me enviam links. Quando gosto da música, toco.

Cinform – O seu projeto tem um conceito da música, da cultura, sem
fronteira. É esse cada vez mais o trabalho do DJ?
PT – O DJ é o grande conector das pessoas com elas mesmas e entre
elas, através da música e das simbologias que vem nelas atreladas.
Cada um soma isso a seu repertório particular, sua bagagem pessoal da
vida toda e também das lembranças coletivas e vão levando consigo em
cada noite um novo aprendizado sobre si mesmo, sobre a vida e sobre os
outros ao seu redor.

Baile Tropical #3 em Brasília 2010

Cinform – Quem são os outros DJ´s que pegam a mesma onda que você?
PT – No Brasil, Lucio K (RJ), Guga de Castro (CE), Dj Tudo (SP), djs
Criolina (DF), Kaska (SE), Dolores (PE). Pelo mundo, tem o Vila
Diamante (Argentina); DJ Kostov, da Bulgaria; Toy Selectah, do México
e Uproot Andy, do EUA e muitos outros mais.

Cinform – O que vai pegar este ano e no próximo verão brasileiro em
música eletrônica?
PT – Acho que o tecnobrega vem violentamente no mercado nacional. O
disco da Gaby Amarantos é um divisor de águas nisso, mas percebo que a
nova música latina vai dominar o mundo. A cumbia vem ganhando muito
espaço. Os colombianos do Bomba Estereo e os DJs e produtores
argentinos do Coletivo Zizec já estão com um grande mercado pela
Europa e América, e isso é uma avenida para a nova música brasileira
andar nos próximos anos.

ZOOM
Nome: Patrick Torquato Gonçalves, mais conhecido como Patrick Tor4. De
onde: nasceu na Bahia, mas se considera um sergipano de Aracaju.
Idade: 32. Religião: espírita, umbandista e outras mais. Formação
acadêmica: graduado em Rádio e TV pela Universidade Federal de
Sergipe. Profissão: é o atual coordenador de Atividades e Relações
Institucionais da Arpub (Associação das Rádios Públicas do Brasil).
Semana passada sua música entrou na programação de algumas rádios na
Europa (http://bit.ly/f4Wsww). Currículo: já tocou muito na noite
sergipana, principalmente nos anos 90. É um dos fundadores da banda
sergipana Naurêa. Foi o primeiro diretor da atual fase revolucionária
da Rádio Aperipê.

3 responses to this post.

  1. Mandou bem tor4 o lance é esse, vamo que vamo fortalecendo as redes!
    Abraço

    Curtir

    Responder

  2. Posted by jTorquato B. Filho on abril 8, 2011 at 7:39 pm

    Ele é apenas fantástico, um Colombo desavisado com uma lanterna em busca de toques.

    Curtir

    Responder

  3. Posted by Fábio Rogério on abril 12, 2011 at 4:43 pm

    Estive em Belém há uns 5 anos atrás e cheguei no dia do aniversário da cidade. A festa foi com os maiores representantes do tecnobrega. Estranhei muito. Não desceu. Recentemente na casa de uma amiga no Rio que o namorado é do Pará vi dois documentários sobre o tecnobrega e também a apresentação de Patrick no Rec-Beat em Recife me fizeram ter um olhar diferenciado. Conheço pouco, mas estou curioso.

    Curtir

    Responder

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: