Pré-axés e Pós-axés na Bahia

I...lê aiê sua beleza se transforma em você ( caetano veloso)

Acontece muito de estar no papo com alguém e encaixar uma letra de canção para ilustrar seu ponto de vista? Usa alguma letra para se fortalecer, se acalmar? Isso é um dom, saiba. E algumas pessoas usam esse talento na profissão, no dia a dia, nas relações consigo mesmo e com o mundo.
As músicas dos blocos afros me acompanham diariamente. Querem me derrubar? Vou de “escorrega levanta, mas nunca está sozinho” (Ilê Aiyê) ou “extirpar o mal que nos rodeia e se defender… a arma é musical” (Olodum). Mexem com minha auto-estima? Lembro que sou uma “majestosa negra, soberana da sociedade”, como a Rainha Ranavalona ou uma “negra poderosa do Ilê”. Se estou alegre cantarolo o ABC do negão com minha filha de 5 anos, ela adora. Se estou triste, me animo com samba-reggae.

avisa lá avisa lá avisa lá!!

Hoje vou compartilhar uma alegria que ativou essa memória musical num lugar completamente inesperado.
Numa sexta-feira, eu aqui em Brasília, depois de muito trabalhar, fui dançar numa festa chamada Baile Tropical que estreava na capital. A pista me recebeu com… Ilê Aiyê, Olodum, Araketu, Malê Debalê! E tocando junto, cumbias, afrobeats e outras sonoridades árabes e ciganas. Tudo com tratamento eletrônico, ritmo marcado, aquele ambiente modernex e nas pick-ups as músicas que lembro quase todos os dias.
Fiquei curiosa para saber: que DJ é esse? De onde ele veio? Como teve a idéia de tratar música de Bloco Afro? Vamos ao papo com Patrick Torquato, Dj e Radialista baiano, colaborador da ARPUB – Associação das Rádios Públicas do Brasil e DJ do Baile Tropical. Quando fechei esse texto o Baile Tropical estava com apresentações marcadas na Espanha, França, Eslováquia, Áustria… (confere: no post Anterior)

Dj Patricktor4 no Festival Recbeat em Recife/2011

1) Qual seu primeiro contato com a música dos blocos afros? Você lembra?

Patrick – Sou baiano, de Paulo Afonso, e comecei a ouvir bem menino. Na fase “Força e Pudor, Liberdade ao povo do Pelô, mãe que é mãe no parto sente dor… e lá vou eu”…

2) E depois dessa absorção involuntária, essa entrada quase por osmose, como Você contato com essa música de novo?
Patrick – Eu sou nascido em Paulo Afonso e passei toda a minha vida rodando pelo nordeste. Alagoas, Sergipe, Paraíba, Pernambuco. Cresci absorvendo e sendo envolvido por tudo que era produto da indústria do Axé. Neste período inicial do final dos anos 80 a música ainda pairava como uma suave evolução pop da musica tradicional com forte influência do Afrobeat e Afropop, da Nigéria, África So Sul e do zouk Afro latino que, inclusive foi base para a lambada.

Muita influência!
Patrick – Até meados dos anos 90, acho que até o segundo disco da Timbalada, era uma energia pop, tradicional e com ousadia estética. Mas, a indústria segmentou numa monocultura absolutamente nociva a música oriunda de Salvador, empacotando tudo como um só som, o Axé, na pior descrição do termo, com todas as sutilezas e detalhes preconceituosos. Isso distorceu todo o valor e respeito que essa musica tinha pra mim e pra toda uma geração que hoje tem por volta de 30 a 35 anos.

3)E o que você vê no cenário atual?
Patrick: Agora, timidamente, começa a aparecer uma cena pós axé.

4)Numa abordagem bem pessoal, o que leva Você, Patrick, Dj do Baile Tropical, a nos oferecer o samba-reggae no seu set-list?
Patrick – Não posso e não devo repetir preconceitos, o samba reggae é uma música tropical, é o novo tropicalismo, junto com várias outras tendências. Da mesma forma que a Semana de 22 para as artes plásticas, o Tropicalismo e o Mangue Beat se fizeram valer do que é de fora, misturaram com o que é nosso e devolveram para o mundo algo novo, pop, moderno com o sotaque local e dialogando com o mundo. Enxergar essas relações, assim como ver que o tecnobrega, o rock e o arrocha são “primos”,todos vindos do bolero é enxergar o mundo sem cores e sem fronteiras e nos deixar livres pra sentir o próprio mundo.

Robertinho Barreto, sua Guitarra baiana e a nova cara da Música da Bahia

5) Como as pessoas reagem a isso pelas pistas? Ao Ilê Aiyê, Male Debalê, Olodum? Você toca no Brasil inteiro e agora está em turnê na Europa. Como acontece?

Patrick – Normalmente! O Baile Tropical é um evento que estruturalmente funciona como um ambiente-laboratório permissivo ao novo e às misturas.Fica super-estranho hoje quando você vai numa festa, numa noite “Pop comercial padrão” e alguém toca a Cindy Lauper, né? Ou tocar Gerônimo, por exemplo. Mas, se for uma festa pop anos 80, a Cindy Lauper está perfeita dentro. E se for uma festa de axé roots 80 o Gerônimo também. O Baile Tropical é isso, meu ambiente para misturar tudo que é quente e tropical, dançante, “fuleiro”, novo e velho, brasileiros de norte a sul, latino e africano então cabe tudo.

6) E a receptividade de quem não tem nossa memória musical é sempre boa?
Patrick – Claro que aí entra a sensibilidade do DJ. Certas coisas cabem mais, algumas nem tanto, e aí é saber construir a pista, conseguir ativar o público é um prazer coletivo. Tem de saber fazer isso, usar as expectativas, brincar com elas e ser malvado também (risos).

7)Você já fez o Baile Tropical na Bahia?
Patrick – Ainda não. Quero fazer em breve. Sempre quis mostrar que é possível ser de Salvador sem ter vergonha, ser negro sem ser enlatado aos moldes do que a indústria do turismo diz que tem de ser. Ser tropical é mais que ser baiano, nordestino, nortista, paraense, pernambucano, brasileiro, latino e ou africano e é tudo isso junto. Eu me considero mestiço, mas teria muito orgulho de ser negro.

8)Tem um amostra do som do Baile Tropical para o público do Tambores da Liberdade?
Patrick – Tenho, aqui tem música do meu EP, que precede o CD e é totalmente influenciada por essa fase de 85: http://official.fm/tracks/210183. Aqui também: http://www.4shared.com/file/yVughMxA/Patricktor4_-_Batida_Tropical_.html.

É isso, Meu Povo. Até a próxima! Daniela Luciana, jornalista. Assessorou o Bloco Afro Ilê Aiyê, o Fórum de Entidades Negras da Bahia, os Deputados Federais Luiz Alberto e Domingos Dutra. Servidora do Ministério das Cidades e, atualmente, da Secretaria de Comunicação da Presidência da República.

esta entrevista foi publicada originalmente em http://migre.me/4q5Hg

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